Pensava eu que já tinha feitas todas as descobertas possíveis de erros médicos entre o período de 2017 e início de 2018 – engano meu, continuei a me surpreender ... infelizmente.

                Primeiro porque passei anos sendo acompanhada por uma medica mastologista que sempre gerava uma espécie de “ consulta terror” quando dizia que  se na minha família eu tinha parentes próximos com histórico de câncer de mama então tinha me cercar de cuidados, fazer mais exames em intervalos de tempo menor ate porque se houve reincididas com certeza era mutação genética na família” . Interessante que se dizia isso em consulta sem nunca sequer ter sugerido um teste genético, mesmo tendo sido solicitado. Então quando de repente chega para você um diagnostico que “você tem câncer de mama” o mundo desaba e você para de raciocinar por um certo tempo. Contudo, como dito anteriormente não me contentei com certas avaliações e informações passadas pela equipe médica de Recife e fui em busca de outras opiniões em São Paulo.

                Quando saiu o meu resultado de teste genético dizendo ser “ negativo para mutações”, juntando com as inúmeras consultas com mastologistas e oncologistas de centros de tratamentos como Hospital Sírio Libanês e Hospital Albert Einstein onde unanimemente me disseram em resumo “ os procedimentos realizados em você foram muito drásticos para seu caso que não tem mutação genética, e exagerados considerando as alternativas de tratamento, ... seu caso foi infelizmente uma obra de acaso e azar”  então meu alerta ligou novamente. Dessa vez não por mim, mas para saber se o tratamento que foi realizado e os procedimentos que minha tia, que praticamente é minha irmã mais velha, realizou e realizava ao longo de tantos anos – também vítima dessa doença há alguns anos atrás estavam corretos. E o que isso poderia implicar ou não em aconselhamento genético ou outros cuidados com sua filha – minha afilhada.

                Em abril de 2018 fomos a São Paulo, minha tia fez varias consultas e o teste genético. Ela já tinha sido vitima de um primeiro erro médico, quando em seu primeiro diagnostico com 37 anos o medico optou por retirar apenas um quadrante, não removeu tecnicamente tecido suficiente, nem prescreveu tratamento de quimioterapia ou radioterapia na época, mesmo ela pedindo, e consequentemente o câncer voltou muito mais agressivo, não apenas mas em ambas as mamas em menos de 02 anos. A mastologista que nos acompanhou por anos, disse ter feito uma cirurgia radical, ter removido todo tecido mamário e sempre a desaconselhou a fazer teste genético e a fazer a reconstrução, muito pelo contrário, sempre a desestimulava, e se já não é fácil ter tido a doença, tem certos “ pânicos” criados por médicos que pioram ainda mais a auto estima para não dizer demais danos psicológicos em seus pacientes.

            Infelizmente deu “positivo para mutação de BRCA”. No entanto para nossa surpresa os exames diversos de imagem mostram que ela ainda tinha resíduos de tecido mamário, isto é, ela ficou sem saber por quase 10 anos que tinha uma espécie de “bomba relógio” em seu corpo. Por que não se sabe explicar “se”  ou  “ quando”  a mutação pode voltar a se manifestar.

           Felizmente a equipe médica de São Paulo conseguiu mostrar que era necessário nova intervenção cirurgia para remover todo resíduo possível de tecido mamário, e que após isso ela teria condições de fazer a reconstrução das mamas. Ai de repente foi necessário um tempo para parar, pensar, analisar..., tipo, você está há anos acreditando em algo que descobre que está errado, que de repente você não está livre do problema como haviam dito, é no mínimo complicado, mas enfim ela fez os procedimentos... o resultado foi surpreendente, a recuperação mais rápida que o desejado.

           Acompanhando os procedimentos recentes dela, descobri que existe uma técnica de nome complicado, mas que em resumo seria para Oxigenar um tecido que esta sofrendo um processo de necrose.  Como disse em textos anteriores, usaram técnicas incorretas em meus procedimentos que geraram uma área de necrose próxima a cicatriz, e que pode também ter relação com a perda do meu musculo. Hoje eu tenho uma prótese 60% solta em uma das mamas por não ter esse musculo que daria sustentação a prótese. Nunca ninguém da equipe em Recife nem sequer mencionou tal tratamento. Passei meses fazendo diversos tipos de curativos para tentar fechar uma cicatriz com necrose por erro médico. Ainda assim surgiram outras sequelas depois, então mais uma “descoberta”. Depois vieram as descobertas de como se conduz o pós-operatório, as técnicas, restrições entre outros que tem muitas diferenças.

           Ai como se não bastasse tantas descobertas de erros comigo ou com alguém muito próximo, também comecei a descobrir e ouvir relatos de outros pacientes.  Pacientes que chegaram a óbito, talvez por algum procedimento incorreto ou por falta de ter sido realizado o tratamento correto, bem como histórias de pacientes vitimas de um terror psicológico sem tamanho, pois quando na hora do desespero de um diagnostico procuram ajuda medica e escutam “você é muito nova e seu câncer é muito agressivo, não vai ter jeito” . Ouvir algo assim de um profissional da área de saúde é no mínimo desumano.  A paciente está em busca de ajuda e escuta um monte de barbaridades e grosseiras. Tem algo muito errado nisso. Assim como tem algo de errado quando a paciente relata que acordou no meio da cirurgia, e o medico a quem ela sempre se reportou e confiava esta simplesmente sentado num canto de uma sala de bloco cirúrgico, enquanto assistentes realizavam o procedimento, então elas se questionam, quem de fato fez o procedimento um assistente? Um residente? E ficam sem resposta.

            Se me perguntarem sobre meus próximos passos posso responder que no momento ainda “estou de férias de cirurgias”, como não há por enquanto nenhum tipo de emergência para realizar a minha nova reconstrução vou esperar um pouco mais.

           Me desliguei de algumas atividades, mudei meu estilo de vida e principalmente forma de ver o mundo e as pessoas. Acrescentei outras atividades, recentemente uma amiga até me questionou como eu conseguia trabalhar com isso. De uns meses para cá comecei a trabalhar ajudando meu marido numa loja de Moda Praia, isto é, literalmente vendo mulheres de diversos tipos, histórias e corpos provarem biquinis no meu dia a dia, e isso para mim esta sendo ótimo, porque escuto novas histórias e casos, observo como é a relação das mulheres com seu corpo e com suas mamas por exemplo, escuto sobre o que acham de seus corpos e padrões, o que mamas grandes, pequenas, medias, caídas, flácidas, desiguais ou outras diversas definições que representam em suas vidas.  Padrões de beleza são criados constantemente pela mídia e hoje por redes sociais, uma hora querem as mulheres com cabelos lisos, depois querem com cabelos cacheados, outra hora querem roupas mais coloridas, depois voltam para as mais sóbrias, aí surge a moda de colocar mais silicone e peitos e enormes, depois se esquece nas mamas e investem nos glúteos. Eu nunca fui de seguir nenhum tipo de tendência, mas me divirto com minhas clientes e suas histórias para tentarem se encaixar em padrões de beleza.  

          São muitas as mulheres que se sentem pressionadas pelos padrões de beleza cobrados pela sociedade. Chega a ser uma exigência sufocante, muitas vezes até desumana na cabeça daquelas com a autoestima fragilizada. Tem mulher que se enxerga de uma maneira totalmente distorcida do real, por conta das inúmeras vezes que se vê fora do contexto e não encaixada naquilo que dizem ser o bonito. A autoestima fragilizada derruba o ego, apesar de toda opinião sincera lhe dizendo o contrário. O mundo tem mais de milhões, bilhões de pessoas e nenhuma delas é exatamente igual a outra. É a nossa peculiaridade que nos tornam pessoas únicas, e não há nada de errado nisso. Hoje posso ter algumas cicatrizes que não tinha a uns anos atrás mas isso só me fortalece e me faz dar mais valor a vida, e não vai ser porque uma cicatriz pode aparecer ao usar um biquini que vou deixar de usa-lo e me sentir bem com isso. Não me importa as opiniões alheias, importa quem eu sou  e o que sinto.

         Em breve vem o check up do ano 2019 e assim que possível escrevo mais um pouco. Minha intenção é que essas diversas informações possam de alguma forma ajudar outras pessoas.