O que são os genes BRCA1 e BRCA2?

      

            O câncer é uma doença que surge quando uma célula de um órgão ou tecido sofre mutação, isto é, perde suas características básicas e passa a se multiplicar de forma descontrolada, espalhando-se pelo corpo. O câncer surge habitualmente quando o DNA da célula sofre uma lesão.

 

             Como agressões ao DNA celular ocorrem a toda hora, como nos casos de exposição à radiação solar, à toxinas no ar ou nos alimentos, contato com vírus, consumo de drogas (lícitas ou ilícitas), etc., se o nosso organismo não tivesse mecanismos de defesa, todos nós teríamos câncer precocemente. Entre os vários mecanismos contra o surgimento de tumores, estão os anti-oncogenes, isto é, são genes responsáveis por reparar as lesões do DNA. O BRCA1 e BRCA2 são dois exemplos da família dos anti-oncogenes. Ressaltando que embora as células disponham de mecanismos de reparo que removam, eficientemente, a maior parte das lesões introduzidas em seu DNA, uma pequena parcela delas não chega a ser reparada ou é reparada de forma incorreta. Como conseqüência surgem as mutações.

 

         Quando os anti-oncogenes BRCA1 ou BRCA2 sofrem mutação – e já foram identificadas mais de 1000 mutações distintas -, eles perdem a capacidade de suprimir o surgimento de tumores, deixando o indivíduo mais exposto ao desenvolvimento de cânceres, principalmente os cânceres de mama e ovário. A razão pela qual as mutações no BRCA1 e BRCA2 predispõem o desenvolvimento preferencialmente de tumores da mama e do ovário ainda não está esclarecida, no entantooutros tumores também estão relacionados aos genes BRCA1 e BRCA2, mas em proporções menores. Exemplos são os cânceres de pâncreas, cólon, colo do útero, trompas, vias biliares e melanoma. Importante ressaltar que esta mutação não é muito comum, acometendo apenas cerca de 0,1% da população.

 

      A história familiar da doença é certamente um fator epidemiológico de risco bem estabelecido. Entre 5 e 10% de todos os casos de câncer de mama está relacionado à herança de mutações genéticas, tendo como característica a instalação da doença em mulheres jovens. Se ao analisar o historico histórico familiar forem encontrados casos com características peculiares como: 

 

1- parentes afetados em três gerações sucessivas;

 

2- dois ou mais parentes de primeiro grau com diagnóstico da doença no período da pré-menopausa;

 

3- casos de câncer de mama bilateral

 

4- casos de câncer de mama em homens.

 

5- ocorrência de câncer de mama em idade jovem (antes dos 50 anos)

 

6-  câncer de mama e câncer de ovário na mesma paciente ou em um mesmo familiar;

 

7- dois ou mais casos de tumores relacionados ao BRCA1/2 (câncer de mama, ovário, melanoma, próstata, pâncreas) em parentes do mesmo lado da família (paterno ou materno)

 

8- etnia judaica Ashkenazi

 

         Pode significar, eu disse " pode", que  a ocorrência de pelo menos uma dessas características, num mesmo grupamento familial, sugere a existência de um componente genético hereditário que predispõe à doença. No entanto a única forma de se confirmar se uma mulher é portadora ou não de uma mutação é através de exames específicos conhecidos como TESTE GENÉTICO.

 

       Todos os fatores acima são fundamentais a serem considerados para a indicação de avaliação genética. Uma vez identificada a suspeição de câncer hereditário e a possível indicação de testagem de BRCA1/2, a avaliação com o médico geneticista é recomendada. Nesse momento, o médico, através da revisão da história familiar, elaboração do heredograma (diagrama que descreve a história familiar), revisão de exames anatomopatológicos da paciente e familiares afetados, bem como cálculos de risco e critérios clínicos, definirá a indicação ou não da realização da testagem genética. 

 

        Uma vez identificada a suspeição de câncer hereditário e a possível indicação de testagem de BRCA1/2, a avaliação com o médico geneticista é recomendada. Nesse momento, o médico, através definirá a indicação ou não da realização da testagem genética. A partir daí, o aconselhamento genético é recomendado antes e depois do teste, devendo ser realizado por um profissional com experiência em genética do câncer.

 

      Durante o aconselhamento genético, muitos aspectos deverão ser abordados, como:


– adequação dos testes genéticos (o mais bem indicado para o caso);

 

– implicações médicas de um resultado de teste positivo ou negativo;

 

– possibilidade de um resultado de teste não ser informativo;

 

– riscos psicológicos e os benefícios do resultado;

 

– riscos de transmissão hereditária de uma mutação (ou seja, passar os genes alterados para os filhos);

 

– opções de manejo e rastreio (testes de prevenção ou de diagnóstico precoce) subsequentes (não só para a paciente, como também para seus familiares).

 


              A análise da indicação da realização de testagem genética para BRCA1/2 deve ser realizada de uma forma ampla e compreensiva, buscando analisar os diferentes critérios e riscos de mutação genética, com o objetivo de determinar de forma correta a necessidade ou não para cada paciente de forma particular .

 

             As mulheres com mutações BRCA1 e BRCA2 têm riscos significativamente elevados de câncer de mama e de câncer de ovário. O risco de câncer de mama é de 50 a 85% e o de câncer de ovário entre 15 a 45%. Quanto mais tempo a mulher vive, maior será o seu risco de ter câncer. Por exemplo, praticamente todas as mulheres com mutação destes genes que vivem até 90 anos já terão tido pelo menos um episódio de câncer de mama ao longo da sua vida. Há também um risco aumentado de um segundo diagnóstico do câncer de mama, ou seja, a mulher com mutações do BRCA1 e BRCA2 tem alto risco de ter um novo câncer de mama, mesmo que tenha conseguido se curar de um câncer prévio. 

 

            Um dos pontos frequentemente questionados é de quais são os critérios utilizados para definir a indicação (ou não) da testagem genética. Esse é um processo complexo, que envolve uma série de critérios clínicos que variam entre diferentes diretrizes médicas (como por exemplo, NCCN, USPTF, ANS/Brasil, ASCO) e que podem ser complementados através de ferramentas de cálculo de risco de ocorrência de mutação através de programas específico (como por exemplo, PennII risk model, Myriad calculator, Manchester Score). O uso integrado dessas ferramentas e critérios clínicos com a história clínica de cada caso em particular são essenciais para a tomada de decisão, buscando o melhor desfecho para cada paciente. Dessa forma, a análise da indicação da realização de testagem genética para BRCA1/2 deve ser realizada de uma forma ampla e compreensiva, buscando analisar os diferentes critérios e riscos de mutação genética, com o objetivo de determinar de forma correta a necessidade ou não para cada paciente em particular.

 

          Atualmente, painéis genéticos que incluem a testagem de múltiplos genes em um único exame (coleta) estão cada vez mais disponíveis, surgindo como uma nova opção para a investigação genética desses pacientes. Os painéis são elaborados por cada laboratório, que pode incluir mais ou menos genes, e ser direcionado somente para genes de alto risco, ou incluir também os chamados genes de baixo ou moderado risco. A decisão de utilizar um painel genético deve seguir o mesmo racional da indicação de teste de um único gene: avaliar a indicação, ter o aconselhamento genético realizado (agora para as especificidades de todos os genes incluídos no painel) e determinar as especificidades do manejo (medidas preventivas associadas ao resultado). Os painéis genéticos são especialmente úteis nos casos em que a história clínica e familiar pode ser explicada por mutações em dois ou mais genes (a família avaliada preenche critérios clínicos para mais de um tipo de síndrome de predisposição hereditária ao câncer).

 

Resumindo:

 


1- a grande maioria das mulheres com câncer de mama não tem mutações nos genes BRCA1 ou BRCA2.

 


2- a grande maioria das mulheres com mutação dos genes BRCA1 ou BRCA2 terá câncer de mama em algum momento da vida.

 

 

 

     A partir do momento que a mulher descobre se é portadora ou não de uma mutação como BRCA1/2 tem como conversar com sua equipe médica a respeito de como deve ser / frequência de exames e tipos para um rastreio mais frequente de possíveis malignidades, assim como verificar a possibilidade ou não de cirurgias preventivas assim como a possibilidade de prevenção com uso de medicamentos que devem ser prescritos de acordo com casa caso.