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10. out, 2019
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Recém-chegado ao Brasil, o medicamento abemaciclibe é voltado contra o subtipo mais comum do tumor de mama em estágio avançado – e vem em pílulas

Cerca de 69% de todos os diagnósticos de câncer de mama são do tipo RH+/HER2-. Nessas situações, a doença é estimulada por hormônios sexuais femininos – daí por que, em casos avançados, os médicos sempre incluíam no tratamento a hormonioterapia, que serve justamente para bloquear a ação dessas substâncias. Mas acaba de chegar ao Brasil o remédio abemaciclibe (da farmacêutica Eli Lilly), a primeira opção contra essa enfermidade que pode ser empregada sem a tal hormonioterapia em certos cenários.

Em geral – e isso vai continuar assim –, a pessoa com um tumor de mama RH+/HER2- que se espalhou pelo corpo recebe quimioterapia ou terapia-alvo junto com comprimidos que bloqueiam a ação dos hormônios femininos. O abemaciclibe, aliás, também pode ser usado assim (e como primeira opção de tratamento, aliás).

“Acontece que, às vezes, já utilizamos diferentes combinações, com diferentes tipos de hormonioterapia, e não conseguimos controlar o câncer”, lamenta o oncologista Antonio Carlos Buzaid, da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo. “Nessa situação, tínhamos poucas opções, como dar mais doses de químio isoladamente”, completa.

Eis que estudos com a nova medicação mostraram que, até nesse cenário mais complicado, ela trouxe resultados positivos. Segundo o estudo Monarch-1, quase 20% das mulheres que, passadas todas as etapas prévias, recorreram a esse fármaco como tratamento único tiveram uma resposta positiva considerável. Parece pouco, mas outros levantamentos revelam que a quimioterapia só beneficiou 10% dessas pacientes.
Além de dobrar a taxa de resposta, o abemaciclibe freou o avanço da enfermidade por seis meses (ante três meses da químio).

10. out, 2019

Sao 59 mil novos casos  de cancer de mama por ano no Brasil

É impressionante como cresceu o número de medicamentos que fazem frente aos nódulos malignos nos seios. E a lista só aumenta: em 2018, o palbociclibe (Pfizer) e o ribociclibe (Novartis) ganharam sinal verde da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa. Eles são prescritos contra o câncer de mama avançado com receptores para hormônios sexuais e sem a expressão do gene HER 2 — o médico consegue checar esse perfil por meio de uma bateria de exames.

A dupla integra o grupo das terapias-alvo, que atingem partes específicas do tumor, e são usadas em conjunto com os comprimidos da hormonioterapia, outro pilar do tratamento atual. Algumas evidências apresentadas na Asco 2019 revelam que a dobradinha chega quase a triplicar o tempo de vida das pacientes, algo impensável alguns anos atrás.“Falamos de medicações bem toleradas e com pouquíssimos efeitos colaterais”, diz o oncologista Felipe Ades, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo.

Outra boa-nova recente foi a estreia da imunoterapia nesse campo: o atezolizumabe (Roche) é uma saída efetiva quando aquele marcador PD-L1 aparece positivo nos testes laboratoriais.

(https://saude.abril.com.br/medicina/as-principais-novidades-do-maior-congresso-do-mundo-sobre-cancer/)

6. mar, 2019
Reportagem revista Saude - novembro 2018

Pense em um exame de sangue que pode detectar precocemente o câncer. Mais: em uma única coleta, você já se preveniria contra diferentes tipos de tumor, alguns dos quais até hoje não contam com esquemas de rastreamento eficazes.
Pois esse é o potencial de um método desenvolvido por instituições canadenses, americanas e francesas. E tem dedo brasileiro nessa história: o trabalho é chefiado pelo imunologista Daniel de Carvalho, do Princess Margaret Cancer Centre.

Então vamos aos detalhes dessa promessa. Atualmente, já é possível confirmar o diagnóstico de um ou outro tipo de câncer e acompanhar suas evoluções com exames de sangue batizados de biópsias líquidas. Essa técnica basicamente analisa pedacinhos microscópicos da doença (DNA tumoral, fragmentos de células…) que se desprenderam e caíram na circulação.

No momento, ela é utilizada no Brasil para monitorar determinados casos de câncer de pulmão, enquanto, nos Estados Unidos, também já foi aprovada para câncer de mama, intestino e próstata. No entanto, repare que a biópsia líquida atual ajuda a confirmar os resultados de exames feitos anteriormente e vigiar o desenvolvimento da enfermidade – não detectá-la nos primeiros passos.
Por quê? Segundo Daniel de Carvalho, fazer o diagnóstico precoce por meio de exames de sangue é como encontrar uma agulha no palheiro. Ora, é necessário reconhecer uma mutação em trechos minúsculos de DNA tumoral entre bilhões de moléculas circulando no sangue.

“Isso é especialmente difícil nos estágios iniciais, quando a quantidade de material genético do câncer no sangue é mínima”, justifica o especialista, em comunicado à imprensa.
A sacada e os resultados
Em vez de rastrear as mutações do DNA tumoral, os cientistas mapearam outras alterações genéticas típicas da doença (as alterações epigenéticas). A partir de sistemas de inteligência artificial, conseguiram reconhecer milhares de modificações específicas para cada tipo de câncer.

“Essa estratégia basicamente transforma o problema de ‘uma agulha no palheiro’ em ‘milhares de agulhas no palheiro’. O computador precisa apenas encontrar algumas para identificar a doença”, explica Carvalho.

Com esse ajuste, os pesquisadores compararam amostras de sangue de 300 pacientes em tratamento para sete tipos diferentes de tumor (colorretal, pâncreas, rins, pulmão, mama, bexiga e leucemia) com a de indivíduos saudáveis.

Para a alegria de todos, esse teste foi altamente eficaz no diagnóstico precoce. Ele, aliás, conseguiu acusar onde o câncer estava escondido – não adianta muito saber que você tem o problema se não sabe exatamente onde ele está para tratá-lo.

O próximo passo é avaliar o método em maiores bancos de dados, que envolvam ainda mais tipos de câncer. E, depois, realizar estudos clínicos, com foco na detecção precoce.

Se tudo der certo, estaremos diante de uma revolução no diagnóstico dessa doença. E, consequentemente, as taxas de cura ao redor do mundo poderão subir ainda mais.

6. mar, 2019
Reportagem revista Saude - outubro 2018

Acaba de desembarcar no Brasil um remédio oral que pode melhorar bastante a vida de mulheres com câncer de mama avançado – estima-se que de 20 a 50% delas chegue a essa fase, quando a doença invade outros órgãos. Aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, o comprimido ribociclibe, da farmacêutica Novartis, mostrou ser um bom inimigo contra o tumor, ao mesmo tempo que provoca efeitos colaterais aceitáveis.

“Ele faz parte de uma classe nova de medicamentos, que inibe proteínas responsáveis por acelerar o crescimento celular do câncer”, ensina o médico Sergio Simon, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (Sboc). “Com isso, a doença para de crescer e vai regredindo aos poucos”, completa.

Segundo Simon, o fármaco em questão possui uma ação sinérgica com a hormonioterapia. Ambos atuam freando a multiplicação celular, por diferentes vias. Até por isso, ele é indicado em conjunto com a hormonioterapia.

O ribociclibe vira uma primeira opção de tratamento contra o câncer de mama avançado com receptores para hormônios sexuais (marcados pela sigla RH+) e sem o gene HER 2 (ou HER 2 negativo). Essas particularidades são descobertas por meio de exames após o diagnóstico – e correspondem a 69% dos casos de tumores nos seios, avançados ou não.

23. jun, 2018

https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2018/06/fernando-cotait-maluf-medicina-de-precisao-o-novo-caminho-da-oncologia.shtml

 

Passou a era em que o mesmo tratamento oncológico servia para todos. Já percebemos há tempos que somente alguns pacientes aproveitavam a eficácia das terapias tradicionais. A tecnologia confirma que o câncer é muito mais complexo do que se imaginava, com distinções marcantes dos mesmos tipos de tumor entre os indivíduos.

Estudos recentes em pacientes com câncer de vários sítios primários, como rim e mama, mostram que existem alterações moleculares e mecanismos de crescimento diferentes, invasão e metástases distintas, dependendo da área em que é feita a biópsia do tumor. São como digitais, específicas de cada indivíduo.

Este foi o tema do Congresso da Sociedade Americana de Oncologia, realizado há poucos dias: a medicina de precisão. Com o mote "Delivering Discoveries: Expanding the Reach of Precision Medicine" (algo como "Fazendo Descobertas: Expandindo o Alcance da Medicina de Precisão"), o evento focou esta nova forma de medicina em oncologia, útil não só para opção de estratégias, como drogas dirigidas para alvos específicos do tumor, mas também para manter as taxas de cura em altos índices com escolhas mais simples.

 

Um exemplo disso é o câncer de mama. Ganhou destaque na imprensa mundial o estudo TAILORx, que analisou o papel de 21 genes (avaliados no próprio tumor) para a escolha do tratamento de um dos tipos mais comuns da doença, evitando quimioterapia (e seus efeitos colaterais) e adotando somente a hormonioterapia.

A avaliação conseguiu, com segurança, eleger as pacientes que se beneficiariam do tratamento menos agressivo, com chances de cura de 83% a 97%, apenas com a terapia hormonal, poupando cerca de 70% das pacientes de tratamento quimioterápico.

Do mesmo modo, a medicina de precisão aponta quando as novas formas de imunoterapia são mais eficientes que a quimioterapia para o câncer de pulmão não pequenas células metastático.

A sinalização é baseada na expressão da proteína PD-L1, que inibe a ação dos linfócitos, os guardiães da imunidade. Em um estudo que incluiu 1.274 pessoas, pacientes tratados com imunoterapia apresentaram redução do risco de morte de 19% a 31%, dependendo da expressão da proteína PD-L1.

Ainda na área de testes para selecionar os tratamentos, a presença de um receptor de andrógeno alterado chamado AR-V7, encontrado em alguns tumores de próstata, mostra que alguns dos novos hormônios não funcionam. Os resultados selecionam esses pacientes para tratamentos mais efetivos com quimioterapia.

Para câncer de bexiga, uma nova droga que ataca um receptor alterado em 15% a 20% dos tumores, chamado "receptor do fator de crescimento do fibroblasto", foi responsável por 40% das chances positivas de resposta, comparado a somente 5% das drogas tradicionais.

O mesmo ocorre no câncer de próstata, que expressa a proteína PSMA em sua membrana. O uso da droga radioativa lutécio foi ligado a essa proteína, com uma taxa de resposta de 60% em 50 pacientes com doença muito avançada e que já haviam falhado em outras terapias. Centros brasileiros devem utilizar a estratégia ainda este ano.

Nos tumores do cérebro, duas vacinas ainda experimentais prometem prognósticos animadores. A primeira, feita a partir do próprio tumor do paciente e de partes das proteínas relacionadas a ele, demonstrou taxas de sobrevida de duas a três vezes maior que as obtidas com as medicações atuais.

A segunda vacina, produzida a partir de uma mutação específica chamada IDH1, revelou taxas de resposta com extensa inflamação em 37% e controle de doença em quase 90%.

Nessa nova era, a da medicina de precisão, com o auxílio da tecnologia e a descoberta de novas moléculas, trataremos os indivíduos como únicos. O paciente não mais vai se adequar ao tratamento, mas sim o tratamento a ele. 

O desafio agora, como sugeriu o evento americano, é expandir o alcance dos achados científicos para o maior número de pessoas em todo o mundo.

 
Fernando Cotait Maluf

Diretor associado do Centro de Oncologia da Beneficência Portuguesa de São Paulo, diretor do Centro de Oncologia do Hospital Santa Lúcia (Brasília) e membro do Comitê Gestor do Centro de Oncologia do Hospital Israelita Albert Einstein